O trabalho por plataformas no Brasil envolve 1,7 milhão de trabalhadores, dos quais 878 mil (53,1%) atuam em aplicativos de transporte de passageiros (IBGE, 2025). Trata-se de um contingente submetido ao trabalho uberizado, organizado sob demanda, de forma dispersa e ranqueado pelo gerenciamento algorítmico, contudo, sem reconhecimento do vínculo de trabalho (ROSA & CARRIERI, 2025). Contra as contradições e disfunções do uberismo, passaram a insurgir-se mobilizações, como as paralisações nacionais do “Breque dos Apps”, e organizações que têm sido aglutinadas no debate sobre o cooperativismo de plataforma, proposto por Scholz (2014), definido pela propriedade e a gestão das plataformas por trabalhadores e usuários.
No entanto, a análise dessas organizações no Brasil exige contextualização devido aos repertórios disputados. No país, a difusão/apropriação do cooperativismo de plataforma tem sido capitaneada pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) (ZANATTA, 2022). Institucionalizado pela Lei 5.764/1971 e representado pela OCB, heranças da ditadura, o cooperativismo tradicional está historicamente alinhado às elites e ao agronegócio (MENEZES, 2022; VASCONCELOS JÚNIOR, 2024). Já o cooperativismo popular da economia solidária desenvolveu-se a partir dos anos 1980 como resposta à exclusão socioeconômica, vinculado a movimentos sociais e orientado pela gestão e propriedade coletivas (SINGER, 2022; GAIGER, 2013). Este cooperativismo conta com as Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs) na promoção da tecnologia social (DAGNINO, 2018; POZZEBON & FONTENELLE, 2018).
A partir do caso da cooperativa de motoristas de Varginha (MG), este estudo analisa as práticas organizativas da primeira cooperativa local e sua aderência aos cooperativismos. Realizou-se a observação do grupo no WhatsApp da cooperativa durante nove meses (BARDON et al., 2020) e entrevistas com 12 cooperados. A análise seguiu a abordagem temática reflexiva (BRAUN & CLARKE, 2006, 2023) resultando no mapa temático (Figura 1).
Os resultados evidenciam que a cooperativa de motoristas se constitui coletivamente, promovendo maior autonomia, apropriação da renda e participação nas decisões. A organização é viabilizada, principalmente, por meio de um grupo de comunicação no WhatsApp, utilizado para deliberação, definição de preços, gestão financeira via Pix, coordenação, circulação de informações e mobilização. As enquetes digitais funcionam como mecanismos de gestão, viabilizando processos decisórios horizontais e transparentes. A experiência fortalece redes de ajuda mútua, apoio e articulações reivindicatórias.
No plano econômico, a cooperativa possibilita a retenção integral da renda das corridas, ampliando a percepção de auto-organização. Entretanto, persistem contradições, como a utilização de um aplicativo adquirido de um desenvolvedor, a ausência de controle sobre o código-fonte ou falhas técnicas recorrentes, e a dependência das plataformas corporativas para complementar a renda, produzindo tensões entre resistência e subordinação.
Esses achados indicam que a experiência se afasta da caricatura do cooperativismo de plataforma e se aproxima do cooperativismo popular. Com base nisso, o estudo propõe a noção de organizações coletivas e populares de trabalho por plataforma, que reconhece arranjos híbridos, territorializados e auto-organizados, nos quais as tecnologias não são o cerne, mas a auto-organização coletiva/popular, e são empregadas e subordinadas aos interesses coletivos, o que amplia o debate sobre alternativas sociotécnicas.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)